As 4 Coisas que a IA Me Ensinou Sobre Ser Humano
No início de 2025, fiz uma promessa: ia ser eficiente.
Comprei cursos. Testei ferramentas. Li sobre IA até os olhos arderem.
Resultou. Passei a produzir o dobro em metade do tempo.
Um problema: ninguém queria ler o que eu escrevia.
As taxas de abertura caíram. Os comentários desapareceram.
Um leitor que me acompanhava há dois anos cancelou a subscrição com uma mensagem curta:
"Já não pareces tu."
Não troquei de voz. Troquei de alma sem dar por isso.
1. A IA escreve melhor do que eu. E é por isso que já não a uso para certas coisas.
Certa noite, às 2h, perdi um cliente importante.
Não por dinheiro. Por confiança. Prometi algo que não consegui cumprir.
Pedi à IA para escrever sobre "como lidar com o fracasso".
Ela devolveu 800 palavras bonitas, estruturadas, com citações.
Perfeitas. E vazias.
Nenhuma máquina sabe o peso de desapontar alguém que confiava em ti.
A IA escreve sobre tristeza. Não a sente.
E isso não se automatiza.
2. O meu pior texto foi o meu maior sucesso.
Depois daquela noite, escrevi qualquer coisa sem estrutura. Sem revisão. Com frases repetidas.
Publiquei com vergonha.
Foi o texto com mais comentários que alguma vez escrevi.
Alguém disse: "Parece que me estás a falar ao ouvido."
Passei anos a tentar escrever como os "grandes". A usar fórmulas. A decorar headlines.
O texto que mais tocou as pessoas foi aquele onde me esqueci de tentar ser profissional.
A imperfeição não é um defeito. É a única coisa que a IA não consegue fingir.
3. Tirei férias. Ninguém deu pela minha falta.
Tirei duas semanas de férias. Tudo automatizado. Respostas automáticas. Publicações agendadas. IA a gerir o atendimento.
Quando voltei, abri o computador à espera de centenas de emails.
Tinha 12.
O meu negócio funcionava sem mim.
Não foi liberdade. Foi um aviso.
Se o que construíste funciona sem ti, então não é teu. É uma máquina que alguém pode copiar.
4. Uma mensagem de quatro linhas mudou tudo.
Nenhuma métrica, nenhuma taxa de abertura, nenhum número de subscritores me deu o que aquela frase me deu.
Passei um ano a olhar para os números errados.
A achar que precisava de mais tráfego, mais alcance, mais relevância.
Quando tudo o que importava era ser importante para uma pessoa de cada vez.
E isso não se automatiza.
O que fica, no fundo
Se apagasses tudo o que escreveste no último mês e reescrevesses uma única coisa — aquela que realmente precisavas de dizer —, qual seria?
Não respondas já. Guarda a pergunta. Ela volta amanhã.
O que mudei na forma como escrevo
Antes de publicar, pergunto:
"Se eu lesse isto daqui a dez anos, sentiria orgulho ou vergonha?"
Se for vergonha, não publico. Mesmo que tenha tráfego. Mesmo que esteja otimizado.
Se for orgulho, publico. Mesmo com erros. Mesmo que pouca gente leia.
É só isto. O resto é barulho.
A IA não vai tirar o teu lugar.
Mas vai tirar o lugar de quem escreve sem alma.
A única vantagem que tens — a única que ninguém te consegue tirar — é seres tu.
Imperfeito. Lento. Verdadeiro.
O resto, a IA faz.